África Oriental com a Etiópia

Este texto foi originalmente escrito, pelo coordenador do respetivo volume, para a edição impressa como introdução à área geográfica em questão, sendo que foi deixado ao critério de cada um a possibilidade de o ir atualizando. Deverá ser interpretado em articulação com o texto de introdução geral do respetivo volume.

 

Embora se tenham conservado poucos vestígios edificados da presença portuguesa na África Oriental, aqueles que subsistem, edificados entre os séculos XVI e XVIII, assumem, no seu conjunto, um carácter próprio e original, que se pode traduzir em algumas vertentes.

Em primeiro lugar, destacam-se os vestígios da ocupação militar costeira dos séculos XVI a XVIII, sobretudo nas áreas de presença cultural islâmica e suaíli, com relevo para as fortificações de Mombaça e Quíloa, que atestam a sua articulação com o Mundo do Índico; na sua periferia, prolongam-se até ao Mar Vermelho, até ao espaço mais completamente dominado pelo Islão, a norte, e detectam-se nos raros vestígios deixados na Ilha de Madagáscar, a sul. Com efeito, a sub-área da África Oriental constitui, em termos geohistóricos, um espaço de transição e articulação entre os domínios índico-africanos (Moçambique) e os do Industão (Goa e suas áreas de influência mais direta). A relação estabelecida com a presença portuguesa, intensa nos séculos XVI e XVII, foi-se depois rarefazendo gradualmente. Mais para o interior do continente, na Etiópia, de forma mais ou menos isolada, no quadro dos contactos com o reino cristão que naquela região se desenvolveu, conservam-se restos da influência portuguesa na arquitetura militar, civil e religiosa. Como tema específico, representativo da originalidade desta região (mas também dos problemas inerentes), destacam-se os vestígios do chamado “estilo gondariano”, com a sua problemática, ainda em aberto para uma investigação aprofundada, e respectivo contexto.

Em termos de uma definição e categorização do património arquitetónico existente no conjunto desta extensa área, podem considerar-se três grandes grupos.

Um, que inclui as obras de arquitetura militar, dos séculos XVI-XVII, costeiras e insulares (Mombaça, Quíloa), que de algum modo assinalam a marcação das fronteiras de defesa, na fase do “Império das Índias”, contra a influência islâmica nas regiões mais oeste-meridionais do Índico; neste grupo assinalam-se duas obras, em Quíloa e Mombaça, cujas características arquitetónicas as colocam, uma na fase Manuelina, outra na fase Filipina, no nível mais complexo e elaborado da arte castrense portuguesa; esta arquitetura abaluartada tem um prolongamento homólogo, estratégico e coevo, nas fortificações da costa e ilhas costeiras do norte e centro moçambicanos (Ilha de Moçambique, Quelimane, Sofala), com o prolongamento fluvial dos fortes do Zambeze (Sena, Tete), pois o espaço litoral do Índico islâmico que os portugueses pretendiam dominar nos séculos XVI-XVII constituía um todo indissociável.

Num outro grupo consideram-se as obras de carácter religioso, civil e militar da Etiópia onde a influência portuguesa e jesuíta se fez sentir de forma mais consistente e prolongada (Gondar, Danqaz, Gorgora Nova e Guzara); os edifícios de que se conhecem vestígios arruinados, preservados ou reconstruídos correspondem a obras dos séculos XVI-XVII, mas de cultura mista, integrando influências ocidentais e clássicas com as tradições locais numa resultante híbrida, particularmente interessante pela sua originalidade; a concepção arquitetónica e a própria execução destas obras inclui a influência portuguesa, mas em segundo plano, como que mediada pelo “filtro” dos agentes encomendadores e executores autóctones.

Um outro conjunto inclui os meros vestígios, ou seja, restos muito alterados pela passagem dos séculos (Padrão de Melinde), ou de tal modo desvanecidos pela degradação ou alteração material das suas estruturas (Forte de Tranovato, Igreja, Forte e Arco de Zanzibar), que é difícil determinar a influência portuguesa sem proceder a uma prospecção arqueológica devidamente planificada.

José Manuel Fernandes