Arquitetura Militar

Arquitetura Militar

Salvador, Bahia, Brasil

Arquitetura militar

A preocupação com a defesa da cidade do Salvador está explícita no Regimento recebido por Tomé de Sousa para levar avante a fundação da nova capital. Para isto, vinha munido de "traças", que se costumam atribuir a Miguel de Arruda. Encarregado de executá‐las no terreno veio Luiz Dias, um dos colaboradores de Arruda. Esta preocupação defensiva, diversamente do que alguns pensam, não estava voltada, nos primeiros tempos, para inimigos externos, mas contra o gentio. Isto está claro tanto no Regimento de Almeirim, de 1548, quanto nas cartas do próprio Luiz Dias. Fortificar, porém, a Cabeça do Brasil contra os agressores externos foi sempre um enorme problema para os portugueses. A cidade encontrava‐se, sem dúvida, em local privilegiado pela natureza, como destacam Gabriel Soares e outros, bem assim Diogo de Campos Moreno, sargento‐mor da Costa do Brasil, em 1609, ao dizer: "a grandeza desta bahia a sua formozura e o sitio notavel a fas ser a melhor do mundo". A grande dificuldade era que, como destacavam todos os especialistas em defesa, tinha uma abertura desmesurada na baía, que nunca poderia ser coberta pela artilharia da época e, portanto, era indefensável em escala ampla. De início, a muralha, de sabor medieval e construção provisória, tinha função primordial de conter os silvícolas, já que era eficiente contra as armas de arre‐ messo. Não suportou, porém, o intemperismo dos trópicos nem a dinâmica de crescimento acelerado da cidade. Tampouco suportaria a fúria da artilharia, já bastante eficiente a partir do século XVI. As quatro pequenas fortalezas do tempo de D. Francisco de Sousa (1591‐1602) e de seu engenheiro Baccio de Filicaia, isto é, o Fortim de Santo António da Barra, a antiga Torre de Santo Alberto, a Torre de Santiago, em Água de Meninos, e o Castelo de São Felipe, atual Fortim de Nossa Senhora de Monserrate, eram mais para demarcar território do que para a efetiva defesa da cidade. As incursões de corsários mais bem armados, a partir do fim do século XVI, começaram a preocupar a coroa, que enviou o capitão Frias da Mesquita, nomeando‐o engenheiro‐mor do Brasil, no sentido de começar a tratar da defesa da nova capital. A sua atividade era, porém, pulverizada ao longo de numerosos núcleos urbanos e fortificações da imensa costa brasileira, de modo que, quando os holandeses chegaram em 1624 e tomaram a cidade, encontraram ainda em construção o "Forte da Laje", que seria a defesa mais efetiva do porto, empregando "cestões" para cobrir seus defensores. A fortificação da capital da América Portuguesa é retomada com mais vigor, através de Diogo Luiz de Oliveira (1627‐1635), depois da expulsão dos holandeses, mas evolui muito lentamente, enquanto a nova metrópole cresce de maneira acelerada. O marquês de Montalvão, de meteórico consulado (1640‐1641), teve a missão, talvez orientado pelo seu confessor, o padre Inácio Stafford, conhecido experto em castramentação, de aumentar o perímetro defensivo da cidade com trincheiras mais amplas, cuja atividade continuou, não obstante o seu compulsivo regresso ao reino. O trabalho se intensificará através de António Teles da Silva (1642‐1647), sob a orientação do mestre‐de‐campo engenheiro Pinheiro Lobo. Data desta época a construção do Dique Grande (do Tororó), que dificultava a pro‐ gressão de invasores pelo lado leste da cidade. Todos os especialistas, porém, opinavam pela restauração do Dique dos Holandeses, onde posteriormente se formou a Rua da Vala, depois Baixa dos Sapateiros, por ser um obstáculo capaz de ajudar na proteção da cidade. A incúria das administrações na conservação das defesas, o crescimento urbano, a destruição causada pelas invasões dos particulares e/ou a inclemência do clima fizeram com que, em 1685, fosse chamado o capitão João Coutinho para reprojetar as fortificações de Salvador. Era um experiente profissional de engenharia, que deixou memória importantíssima sobre o argumento. Diz, contudo, o secretário de estado Bernardo Ravasco Vieira, irmão do padre António Vieira, em 1695, que nada tinha sido feito do projeto de Coutinho até aquele momento. As maiores fortificações de Salvador, concebidas dentro de projeto mais realista para defender a cidade, e não todo o seu território, tiveram início com a vinda do mestre‐de‐campo Miguel Pereira da Costa, um engenheiro alentejano, em 1709, e foram coroadas com o projeto de 1716, coordenado pelo brigadeiro João Massé. Deste projeto participaram o próprio Miguel Pereira e o capitão Gaspar de Abreu, coadjuvados por ajudantes formados na Aula Militar da Bahia. Mesmo que não tenha sido executado na sua totalidade, foi reforçada a defesa do porto, com aumento do Forte do Mar, bem como as defesas do norte da cidade, com os fortes do Barbalho e Santo António Além‐do‐Carmo, e do sul, com o de São Pedro, todos de concepção abaluartada. As fortalezas que compõem o sistema defensivo de Salvador são os edifícios mais emblemáticos da presença portuguesa na Bahia, principalmente pela sua força plástica, posição de destaque na paisagem da cidade e simbolismo da ocupação do território. As que ainda existem poderiam, em linhas gerais, ser esquematizadas em fortalezas do século XVI, do século XVII e do século XVIII. Na prática, contudo, não pode prevalecer uma classificação rígida, porque algumas, de período mais recuado, exibem atualmente configuração de reformas posteriores profundas, que lhes mudaram muitas vezes a tipologia.

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