Igreja de Nossa Senhora da Vida (Mattanchery)

Igreja de Nossa Senhora da Vida (Mattanchery)

Kochi [Cochim/Cochin/Santa Cruz de Cochim], Kerala, Índia

Arquitetura religiosa

Nossa Senhora da Vida de Mattanchery é uma das primeiras igrejas construídas pelos portugueses nos arredores da cidade de Santa Cruz de Cochim. Na sequência da construção, na segunda metade do século XVI, de um primeiro edifício em madeira e com cobertura vegetal, a igreja vem a sofrer profundas transformações, passando a estrutura de pedra e cal, acompanhando a tendência geral da evolução das igrejas desta zona. No início, a igreja servia sobretudo a comunidade de cristãos de São Tomé que habitavam a área e se dedicavam ao comércio da pimenta. Em 1622, o terreiro da igreja foi local de reunião de um numeroso grupo de cristãos de São Tomé que, junto da cruz da entrada, celebrou um juramento solene, cujos desenvolvimentos resultaram num complexo processo de oposição entre esta comunidade e as autoridades religiosas portuguesas. No século XIX, a igreja voltou a ser palco de confrontos, agora entre partidários do Padroado Português do Oriente e da Propaganda Fide, recebendo profundos restauros após os conflitos. Embora com grandes transformações, a antiguidade da construção pode ser atestada pela capela‐mor, marcada por grossas colunas toscanas que remontam à estrutura primitiva do século XVI. Desta época é ainda o portal da entrada principal, acusando uma estética manuelina aferida às primeiras décadas de Quinhentos. O seu desenho, muito semelhante ao do portal da Igreja de Nossa Senhora da Esperança, de Vaipim, traduz um arcaísmo que tentava perpetuar a memória do período manuelino, de grande hegemonia militar portuguesa no Oriente. No seu programa arquitetónico, a igreja corresponde a um primeiro modelo de igreja maneirista, divulgado em meados do século XVI, caracterizado por um interior de nave simples, sem galerias laterais, muito idêntico ao da Igreja de Nossa Senhora da Esperança, de Vaipim. A fachada apresenta‐se dividida em três andares, divididos por largos frisos e molduras, rematados lateralmente por grandes enrolamentos e pináculos, com o tramo central mais elevado e encimado por frontão. Verticalmente, a fachada da igreja é dividida por pares de colunas geminadas, com três andares marcados por frisos, acompanhando uma estética maneirista difundida a partir da segunda metade do século XVI. Agregada à fachada principal, desenvolve‐se uma pequena escada exterior de acesso ao campanário, acusando a permanência de uma solução muito antiga que encontramos nas igrejas de Vaipim e de Narakal. Recebendo uma clara influência dos templos hindus, a igreja recolhe‐se no interior de um terreiro, envolvido por altos muros com a entrada enfatizada por um portal. O terreiro é marcado por um belo e monumental cruzeiro com um forte pedestal de desenho maneirista. A completar o conjunto, ergue‐se ainda neste terreiro uma antiquíssima casa paroquial de graciosas proporções.

Helder Carita

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