Fortaleza

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Qeshm [Queixome, Keshm, Qishm], Golfo Pérsico | Mar Vermelho, Irão

Arquitetura militar

Hoje, ainda que a Fortaleza de Queixome padeça de ruína acentuada, sobrevivem numerosas e imponentes estruturas que revelam a sua configuração passada: um quadrilátero irregular, de escala mediana, com baluartes nos ângulos, situando-se a entrada num deles, com uma antecâmara abobadada a preceder o acesso em cotovelo para o interior. As muralhas, de grande espessura, proporcionavam um adarve largo e funcional e eram percorridas em toda a sua extensão por um parapeito aberto a espaços por canhoneiras. No troço amuralhado virado ao mar são visíveis diversas dependências cobertas por abóbadas, sobre as quais se podiam dispor peças de artilharia, reforçando o poder de fogo sobre a praia. No subsolo do pátio, em posição central, abre-se uma cisterna retangular de grandes dimensões (13 x 3,6 x 4,6 metros), com capacidade para cerca de duzentos e quinze metros cúbicos de água, e em que são detectáveis vestígios da sua cobertura abobadada, atualmente arruinada. No exterior, em redor da fortaleza, ainda é perceptível o traçado do antigo fosso.
As fontes históricas que se conhecem indiciam que a fortaleza foi erguida de raiz nos anos de 1621-1622. Contudo, os trabalhos de campo empreendidos recentemente sugerem outra realidade. João Campos, que procedeu ao levantamento planimétrico das muralhas existentes e à reconstituição da planta da fortaleza, defende a preexistência de um forte no local, cujas estruturas teriam sido reforçadas, alargadas e alteadas em 1621, sob a direção do capitão Rui Freire de Andrade. Segundo este autor, existem diferenças de aparelho visíveis que revelam duas fases construtivas principais: a mais antiga, que classifica de manuelina (cerca de 1521 ou posterior), determinou a forma do recinto com baluartes circulares nos cantos e a segunda, realizada cem anos depois, veio reforçar e modernizar a obra existente (na primeira campanha, segundo observou, o material e a forma como foi disposto mostram semelhanças próximas com a segunda fase construtiva de Ormuz, iniciada em 1515, utilizando se pedra ocre característica de Gerum, que teria sido trazida, o que, naturalmente, contextualiza como portuguesa a fortaleza preexistente; na campanha seiscentista, a pedra utilizada é de origem local, o que se coaduna com as circunstâncias de emergência em que decorreram as obras). O autor menciona ainda a forma arrendondada dos ângulos dos baluartes, que poderão ser reminiscências de uma campanha de obras intermédia orientada por Inofre de Carvalho, nos anos de 1558-1560, quando este arquiteto militar se encontrava em Ormuz.
Outros autores já tinham proposto a existência de uma fortificação anterior, como Francisco Bethencourt e, mais recentemente, Pedro Dias, que, baseando-se nos estudos de Campos, descortina três etapas de construção: a primeira, "em que se fez a delimitação do espaço defensivo e os seus primeiros pontos fortes", outra de aumento da espessura e elevação dos muros e a última, em 1621, de consolidação. Este autor refere a carta régia de 27 de janeiro de 1616, em que se alertava o vice-rei da Índia para a necessidade de proteger as fontes de água de Ormuz e se comunicava a ida ao local do provedor das fortalezas daquele estado, António Pinto da Fonseca. Segundo o mesmo historiador, recomendou-se a construção de "um muro de 680 passos, com baluartes nas pontas, e outros mais pequenos ao longo dele", o que, afirma, só teria sido concretizado em 1620, não identificando, contudo, a que obra corresponde na estrutura geral erguida. Apesar do contributo destes autores, persistem diversas interrogações sobre a leitura histórica do processo construtivo da fortaleza, que só serão definitivamente respondidas com um trabalho de campo e uma investigação documental mais aprofundada (note-se que só recentemente se elaboraram estudos de cariz arquitetónico, que ultrapassam a mera referência). Algumas questões, no entanto, devem ser suscitadas. Em primeiro lugar, vários testemunhos documentais asseguram-nos que não existia qualquer fortificação em Qeshm em inícios de Quinhentos. Este é, aliás, um dos locais que o vizir Cojeatar, em 1507, propunha a Afonso de Albuquerque para a construção da fortaleza, tentando demovê-lo da sua preferência pela cidade de Ormuz. Nesse contexto, houve quem ali se deslocasse para observar o sítio: "ao outro dia chegou D. António de Noronha que fora com dois pilotos à ilha de Queixome ver o porto donde os mouros traziam água à cidade; e disse a Afonso de Albuquerque que na ilha havia um lugar grande ao longo da ribeira do mar, no qual o rei tinha umas casas velhas derrubadas e a água que dali se trazia para Ormuz era de uns poços que estavam afastados um pedaço de ribeira e tudo ao derredor da ilha era parcel de baixo fundo" (Albuquerque, 1990, p. 104). Mais tarde, depois de 1515, com o retomar da edificação da fortaleza de Ormuz e a vinda de muitos portugueses e trabalhadores de outras regiões próximas, as condições de apoio ao acondicionamento e embarque da água poderão ter sido alvo de melhoramentos, principalmente o porto, mas a conjuntura favorável não justificava a construção de qualquer fortaleza em Queixome. Nos anos 1521 e 1522, as revoltas violentas em Ormuz, ou, mais tarde, as razias perpetradas por piratas, poderão ter levado a construir um pequeno baluarte ou uma torre junto aos poços de água que abasteciam a urbe ormuzina. As fontes documentais, contudo, são omissas nesta matéria. Por outro lado, a ordem filipina de mandar erguer, em 1621, uma fortificação em Queixome, que equivalia a uma declaração de guerra ao xá da Pérsia, faz supor que, a existirem quaisquer estruturas preexistentes, seriam pouco significativas ou estariam em ruína.
Não é conhecida, igualmente, nos relatos da época, qualquer alusão ao facto de as tropas persas, que defendiam os poços em 1621, terem ocupado ou tirado partido de estruturas fortificadas junto à praia. Também as forças portuguesas, quando desembarcaram, se instalaram num acampamento provisório e, para sua defesa, abriram uma trincheira: "se alojaram em estâncias fazendo tendas das velas, e mandando desembarcar muitas pipas se entulharam e se fêz com elas pela parte do campo uma trincheira, que cercava o arraial de mar a mar" (Andrade, 1940, p. 96). As descrições que se conhecem sobre a construção empreendida em 1621 são omissas, de igual modo, quanto ao reaproveitamento de estruturas. Em concreto, os trabalhos de Freire de Andrade tiveram dois momentos: um primeiro, de construção do recinto e dos baluartes, e um segundo de reforço dessa estrutura, que passou pelo aumento da espessura e pela elevação dos muros. Registe-se, a propósito, que a referência a um "muro velho", no relato dos trabalhos empreendidos por Freire de Andrade, deve ser devidamente contextualizada, uma vez que parece reportar-se, meramente, a uma etapa inicial da obra em curso: "Tratava o Capitão Mór de reforçar a fortaleza de maneira, que os soldados ficassem pelejando com menos risco, e sobroço, e assim mandou fazer um muro de pedra e cal de quatro palmos de largo, apartado dez palmos do muro velho, atravessando um e outro com paredes da mesma largura em proporção, que entulhados os vãos ficava o muro forte e espaçoso, e nesta ordem o cercou todo em redondo acrescentando nove palmos na altura do muro velho, que servia de parapeito, no qual se fizeram seteiras enviezadas" (Andrade, 1940, p. 130).
Por último, deve levar-se em linha de conta, na leitura das estruturas remanescentes do forte, eventuais obras realizadas depois do abandono português, tendo se conhecimento, por exemplo, que Nadir Shah, em 1741, ordenou o restauro da Fortaleza de Queixome.
Seja como for, os trabalhos de 1621-1622 foram de grande fôlego e moldaram, na prática, a fortificação que se conhece. A iminência de um ataque persa e a urgência em erigir a fortaleza ditaram as regras e as características da construção. Os portugueses tinham já longa experiência no uso de estruturas pré-fabricadas e de técnicas de edificação rápida, assim como na adaptação às funções pretendidas e aos materiais disponíveis, aproveitando processos construtivos locais. Na Fortaleza de Queixome fez-se recurso deste engenho e saber. Se a emergência da obra aconselhava um modo de construção relativamente célere, impunha-se simultaneamente que a obra resultasse assaz robusta para absorver os embates da artilharia moderna. Assim, leva-se à prática uma solução de compromisso entre as técnicas de execução rápida e outras mais duradouras, utilizando cofragens de madeira e preenchendo o seu interior com pedra e um ligamento que resultava num duro cimento militar: "mandou o Capitão Mór trazer da armada grandes mastros e pranchas de tabuado, com que se fizeram quatro baluartes mui fortes, e repregados, e se entulharam até à altura de quatro braças com paredes de oito palmos de largura feitas de pedra, e um barro azul mui fino que ligava como cal" (Andrada, 1940, p. 96). Os panos de muralha que ligavam os baluartes parecem ter sido erguidos do mesmo modo desde as fundações até à altura do adarve. No nível superior, a partir do caminho de ronda, a espessura dos muros e parapeitos de todo o perímetro amuralhado diminui para "cinco palmos de largo", utilizando-se um aparelho de "pedra e cal". Os quatro baluartes, que receberam os nomes de Madre de Deus, Espírito Santo, Santiago e Santo António, foram equipados com três peças de artilharia de calibre 24, cada um. Em redor da fortificação abriu-se um fosso "que tinha quatro braças de fundo até à nascença da água, e vinte passos de largo" (Andrada, 1940, p. 96). No conselho reunido em Goa em outubro de 1621, o governador Fernão de Albuquerque refere que "Rui Freire tinha edificado em Queixome um forte "feito de taboas e pedra, e barro com seus baluartes, e algua artelharia" (Couto & Loureiro, 2007, p. 95).
Em 1622, as forças anglo-safávidas conquistam a fortaleza. Em dezembro desse mesmo ano é visitada por um viajante italiano, Pietro Della Valle, que deixou as seguintes impressões: "Qeshm não é uma fortaleza é um pombal [...] razão pela qual muito admiro o valor do capitão Rui Freire e dos portugueses que se encontravam no interior e a defenderam por tanto tempo, mesmo tendo em conta que os persas que a sitiavam não dispunham de artilharia" (Brancaforte, 2008, p. 204). Se Della Valle não se equivocou quanto à bravura dos soldados portugueses, faltou-lhe referir, no que toca ao poder de fogo dos sitiantes, a poderosa ajuda dos ingleses, que chegaram no primeiro mês de 1622, bem artilhados em terra e no mar. Não compreendeu, porém, a função e a eficácia destes fortes de dimensões médias e planta tipificada, que serviram os propósitos defensivos ao longo de diferentes épocas, em muitos locais de presença portuguesa no mundo.
A Fundação Calouste Gulbenkian, em 2002, ofereceu às autoridades iranianas um projecto para restauro do forte.

Maria de Fátima Rombouts de Barros

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