Edifício Prometheus

Edifício Prometheus

Maputo [Lourenço Marques], Maputo, Moçambique

Habitação

Entre 1951 e 1953, Amâncio d’Alpoim Miranda Guedes (1925-2015) projecta em Maputo o seu primeiro edifício de habitação colectiva que designou por Prometheus devido à escala que conseguiu dar a um bloco de apenas 5 pisos. Esta designação tem origem na mitologia grega, em que Prometheus é um titã, uma divindade descendente dos Deuses de grandes dimensões e resistência.

Este edifício pertence ao grupo que Pancho Guedes designa como "Stiloguedes" a "bizarra e fantástica família com bicos e dentes, com vigas rasgando os espaços em redor, com paredes convulsivas e luzes encastradas", baseado nos desenhos e pinturas de Pablo Picasso por volta de 1928, para umas esculturas que nunca chegou a realizar.

O Prometheus está situado muito próximo do mar na esquina entre vias de grande dimensão e com um papel fundamental na dinâmica da cidade, a Avenida Mao Tse Tung e a Avenida Julius Nyerere, paralela à Avenida Marginal. Está inserido numa malha urbana consolidada de geometria ortogonal nas proximidades da Igreja de Santo António da Polana (1959-1962) do arquitecto Nuno Craveiro Lopes (1921-1972), e do Hotel da Polana (1922), da Escola Secundária da Polana (1970-1973) e do edifício do Parque, também da autoria de Pancho Guedes.

O edifício é constituído por quatro pisos de habitação, e um quinto piso recuado, elevado sobre pilares resultando num volume total com o equivalente a seis pisos.

O acesso é feito a Nordeste pela Avenida Mao Tse Tung. Inicialmente o piso de entrada era aberto e destinava-se a estacionamento, tendo sido encerrado e transformado numa agência bancária nos anos 60. As circulações verticais no interior do volume localizam-se na fachada posterior, orientada a Sudoeste, e são constituídas por duas caixas de escadas, a principal e a de serviço, e um elevador. Esta organização reflecte-se na fachada através de vãos de reduzidas dimensões.

Tal como todos os edifícios que fazem parte do "Stiloguedes", a organização interna do edifício é simples e funcional.

Ligado às circulações verticais, Pancho Guedes desenha o corredor de distribuição colectivo para cada um dos 3 apartamentos por piso, com uma porta ao centro e outra de cada lado do espaço. Os quatro pisos de habitação são iguais, constituídos por um T1 e dois T2, no total de doze apartamentos de dimensões reduzidas, o T1 com 32.81 m2 e o T2 com 56.08m2, todos com frente para a Avenida Mao Tse Tung. Os T2 localizam-se nas extremidades do edifício e o T1 no centro. Todos os apartamentos apresentam uma organização funcional semelhante com um hall de entrada, que permite o acesso às diferentes divisões da habitação, podendo ser analisados, de forma simplificada, como um quadrado com um compartimento em cada canto.O último piso é recuado e de serviço, com pequenas arrecadações, ateliers e zona de lavandaria.A organização funcional das divisões dos apartamentos permite que as salas, o quarto principal e as varandas localizadas junto à fachada principal, orientada a Nordeste, recebam várias horas de Sol, enquanto as divisões com menor utilização, cozinha e instalações sanitárias estão orientadas a Sudoeste, não tendo por isso tanta exposição solar. Nos apartamentos T2 existe um quarto, de menores dimensões, com frente para sudoeste, para o qual Pancho Guedes desenha um vão em ambas as fachadas laterais do edifício permitindo aumentar a incidência solar.

O material construtivo predominante é o betão. Estruturalmente a solução escolhida foi o sistema pilar-viga, no entanto os pilares não têm nada de comum. Surgem como planos que fazem lembrar figuras com múltiplos braços abertos, prolongados em altura como se pode observar na fachada lateral. Este sistema repete-se sete vezes ao longo do bloco de acordo com a modulação estrutural. O edifício está equilibrado sobre uma fileira central destes estranhos pilares de onde brotam, como numa árvore, as vigas em consola que suportam as varandas de dimensões generosas, acentuando o peculiar equilíbrio do edifício.

Como em outras obras de Pancho Guedes é possível encontrar elementos escultóricos que o próprio imaginava e criava. No caso do Prometheus, o sistema pilar-viga que se encontra na extremidade do edifício é rematado com seis picos de cada lado do seu topo, como se formassem a cabeça da estranha criatura de braços abertos.

Segundo Pancho Guedes o edifício Prometheus apresenta-se na cidade como um estranho bloco de apartamentos. O arquitecto serve-se dos dispositivos modernos, como a elevação do edifício sobre pilotis, para acentuar o expressionismo e a adjectivação das formas inaugurando um trabalho a todos os títulos inédito.

No projecto original, Pancho Guedes tinha pensado num outro edifício com características semelhantes que seria implantado ao lado deste, a Mulher do Prometheus, tendo sido construído no seu lugar um bloco habitacional de 10 pisos.

Actualmente o Prometheus está muito alterado: o piso térreo foi ocupado por lojas, as empenas perderam a sua expressividade e o último piso, que era recuado,foi aumentado e transformado em habitação.

Original de Ana Tostões e Jéssica Bonito.

(FCT: PTDC/AUR-AQI/103229/2008)

Adaptação de Ana Tostões e Daniela Arnaut.

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