Khovo Lar

Khovo Lar

Maputo [Lourenço Marques], Maputo, Moçambique

Equipamentos e infraestruturas

Em Moçambique, as construções escolares desenvolvem-se no quadro de um processo crescente de autonomia conduzido fundamentalmente pelo arquitecto Fernando Mesquita (1916-1990’s), no âmbito dos Serviços de Obras Publicas da Província, tendo sido reconfigurado e exponenciado através dos vários níveis, desde a educação primária até ao ensino secundário e superior. De acordo com os desenvolvimentos conduzidos a partir de 1951 no seio da UNESCO, o programa educativo constituiu um dos principais temas de investimento, seguindo as estratégias presentes em muitos dos países africanos.

As residências de estudantes acompanham o surto de desenvolvimento do equipamento escolar das quais a residência de estudantes Knovo Lar é um testemunho.

Incluída no Livro 14, "Máquinas de Aprender" de Vitruvius Mozambicanus: as Vinte e Cinco Arquitecturas do Excelente, Bizarro e Extraordinário Amâncio Guedes (1985), a residência de estudantes Knovo Lar resulta da encomenda da Missão protestante Suíça ao arquitecto Amâncio d’Alpoim Miranda Guedes (1925-2015) em 1966, com o objectivo social de acomodar jovens autóctones do interior que vinham estudar para Maputo.

Concluída em 1973, localiza-se entre as avenidas Ahmed Sekou Touré e Eduardo Mondlane e inserida na malha da cidade definida pelo Plano de Araújo em 1887. O lote é um rectângulo de aproximadamente 55 metros de comprimento e 40 m de largura, acessível por uma pequena rua transversal e orientado Noroeste-Sudeste.

O edifício ocupa a profundidade total do lote e é composto por dois volumes: o volume principal de cinco pisos acima da cota da rua e uma cave com luz natural, disposto paralelamente à rua, ligeiramente recuado, ocupando toda a frente do lote; e um volume de um só piso, localizado nas traseiras, definido por um conjunto de edifícios de apoio, como o refeitório e instalações sanitárias, implantadas em torno de um pátio. Os dois corpos estão ligados entre si através de duas passagens cobertas que definem os limites Sudoeste e Nordeste do pátio exterior.

O edifício principal é composto por dois volumes simétricos, que correspondem à separação entre sexos, por esse motivo, a circulação vertical é repetida e está ligada às passagens cobertas exteriores através do piso da entrada, onde também se localizam as salas de convívio, recepção e zonas de distribuição. Na cave estavam localizadas as salas de estudo que em conjunto com as salas de convívio correspondiam aos únicos espaços comuns deste volume. Nos pisos superiores localizam-se dois dormitórios por piso em cada bloco, servidos por instalações sanitárias comuns. No último piso as lavandarias.

A fachada principal caracteriza-se pelo ritmo gerado pelos volumes das varandas que se projectam sobre a faixa de terreno semienterrado que fica entre o muro do passeio e a face do edifício. As varandas mais pequenas protegem-se do sol umas às outras. As do último piso, como, aliás, as duas entradas do edifício, são protegidas por palas simples. As varandas maiores, correspondentes aos dormitórios, estão integralmente tapadas por persianas (venezianas) a semelhança das antigas gelosias de rótulas, ou muxarabis. É o afastamento dos blocos em relação a rua e o afundamento do pavimento fronteiro que permite uma ampla iluminação das caves.

Na fachada posterior, onde a incidência directa do Sol tem menor duração e intensidade, as varandas de maiores dimensões, simétricas às da fachada principal, são abertas. As respectivas janelas, de parede a parede, permitem a ventilação transversal nos dormitórios. Deste lado ganham protagonismo os dois blocos paralelepipédicos das caixas de escadas, em cada um dos quais ainda se salienta uma fiada vertical de varandas pequenas.

O Khovo Lar mantém hoje a sua função, apesar de ter sofrido alterações relativamente aos usos dos espaços da cave e cobertura. Apresenta sinais de degradação embora conserve as características essenciais do projecto inicial.

Original de João Vieira Caldas e Francisco Seabra Ferreira.

(FCT: PTDC/AUR-AQI/103229/2008)

Adaptação de Ana Tostões e Daniela Arnaut.

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