Recolhimento de Nossa Senhora das Necessidades (atual prisão)

Recolhimento de Nossa Senhora das Necessidades (atual prisão)

Daman [Damão/Damaun], Guzerate, Índia

Arquitetura religiosa

O alvará para a fundação da Capela do Recolhimento de Nossa Senhora das Necessidades, localizada em Damão, foi passado em 24 de setembro de 1695. Era desejo da Casa da Misericórdia erguer um recolhimento à imagem daquele que já existia na Serra de Goa. Finalizada a construção em 1708, num terreno a cerca de 400 m a sudeste da Igreja da Misericórdia, a capela seria entregue à administração dos Hospitaleiros de São João de Deus. Um grande temporal, ocorrido em 21 de abril de 1782, devasta o território, levando à queda de telhados de vários edifícios, entre os quais, o da capela. Não dispondo a Misericórdia de verbas suficientes para efetuar as reparações, a capela acabaria por entrar em processo de ruína, vindo a ser transformada em cadeia pública, pelo menos desde meados do século XIX, função que mantém até aos dias de hoje.

O retábulo que hoje se pode observar apresenta caraterísticas típicas da primeira metade do século XVII e, por isso, será certamente oriundo da Igreja da Misericórdia, edificada em 1560. Apesar de alterações e adições que sofreu com o decurso do tempo, o Retábulo do Senhor Crucificado, de madeira entalhada, dourada e policromada, é um dos poucos exemplares, em toda a Índia portuguesa, que mais se aproxima dos cânones artísticos europeus.

Ainda que se desconheça a identidade do seu autor, julga-se que terá tido acesso ao risco importado a partir da metrópole e deixado a sua subtil assinatura num dos pormenores entalhados do imoscapo, testemunhando ser obra de um artista local. Esse pormenor, um vegetalismo transmutado em corpo de macaco, reporta a uma divindade local (Hanunam), símbolo da lealdade, da devoção, da fidelidade e do sacrifício em oposição à imagética cristã na qual o mesmo animal encarna os vícios da vaidade, da cobiça e da lascívia, manifestando-se como prática da miscigenação, operada pelos artistas locais, entre os temas de matriz cristã e o fundo religioso pré-existente.

Mónica Esteves Reis

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