Igreja de Nossa Senhora da Divina Providência

Igreja de Nossa Senhora da Divina Providência

Goa [Velha Goa], Goa, Índia

Arquitetura religiosa

A Igreja de Nossa Senhora da Divina Providência de Velha Goa pertencia ao desaparecido convento teatino de São Caetano, orago frequente mas erradamente atribuído à própria igreja. O edifício do convento localizava‑se imediatamente a sul do também desaparecido Palácio da Fortaleza, perto do Arco dos Vice‑Reis. Hoje, apenas a igreja testemunha a presença desta ordem de frades italianos em territórios do Padroado Português do Oriente. E foi precisamente devido à recusa em prestar obediência ao monarca português que os frades teatinos, chegados a Goa em 1639, tiveram de abandonar o território. Antes disso, entre 1656 e 1672, ergueram o seu convento, que, segundo Rafael Moreira, tem autoria projetual do padre teatino Carlo Ferrari, coadjuvado nesta tarefa pelo irmão Francesco Maria Milazzo. O construtor do convento foi Manuel Pereira. Em relação à igreja, Rafael Moreira estabelece a relação de influência de São Pedro do Vaticano apenas no respeitante à fachada, enquanto a sua planta deriva da do santuário da Madonna della Ghiara, no Reggio‑Emilia. A articulação entre a fachada e a volumetria da igreja, de planta centrada, faz‑se através de uma galilé a toda a largura do templo, localizando‑se o coro alto - possivelmente a característica mais portuguesa de toda esta igreja - sobre este espaço de entrada. O espaço de culto desenvolve‑se a partir do quadrado central, coroado por uma cúpula sobre pendentes, em cujo tambor se localizam as oito janelas retangulares. Uma calote semiesférica e um lanternim encerram este elemento arquitetónico na melhor tradição das cúpulas do Renascimento italiano. No interior, quatro braços de igual dimensão, fechados por abóbadas de arestas com caixotões, perfazem a cruz grega que define o tipo da igreja. Quatro espaços adicionais de planta quadrada completam - também em planta - o quadrado maior onde se inscrevem, se excetuarmos a galilé. A igreja prolonga‑se para o lado nascente em metade da profundidade do quadrado onde se inscreve a cruz grega, perfazendo em planta a proporção de sesquiáltera. Aqui encontra‑se a capela‑mor, ladeada de dois espaços octogonais, funcionando o do lado norte como sacristia. O retábulo do altar‑mor e os retábulos dos altares laterais são em talha dourada,com formas barrocas, como é o caso das colunas salomónicas. O edifício do convento desenvolve ‑se paralelamente à igreja, do seu lado norte. Do exterior é somente visível a ala perpendicular à fachada da igreja, voltada a sul. Uma fotografia da viragem do século XIX para o século XX, mostra o piso térreo apenas com uma porta central e dois olhos‑de‑boi. Posteriormente foram abertas janelas neste piso, correspondendo às do piso superior. A frente do edifício foi ampliada em mais uma ala igual à primeira, enquadrando um corpo central com um pórtico de colunas em cada piso. A Igreja de Nossa Senhora da Divina Providência apresenta características arquitetónicas únicas em Goa e completamente estranhas à tradição arquitetónica da arquitetura religiosa cristã de influência direta portuguesa. De nomear são: no interior, a planta em cruz grega, a cúpula sobre o cruzeiro com tambor assente em pendentes, com calote semiesférica e lanternim, a parede posterior da capela‑mor em forma semicilíndrica, os espaços adjacentes à igreja de planta octogonal; na fachada, os sete tramos (ao invés dos cinco usuais em fachadas com torres) articulados com colunas e pilastras coríntias em ordem colossal e o ático. Também o retábulo do altar‑mor se distingue da maioria dos retábulos goeses que, ou se assemelham a uma fachada através da organização de nichos em pisos, ou seguem o modelo de um arco de triunfo romano. As características arquitetónicas da igreja (de influência italiana direta) evidenciam, por contraste, a especificidade da arquitetura cristã goesa de tradição portuguesa. O carácter único da Igreja de Nossa Senhora da Divina Providência em Goa coloca‑a assim numa posição privilegiada como testemunho da missionação cristã no Oriente durante o século XVII e do complexo processo de adesões e resistências a modelos arquitetónicos europeus.

António Nunes Pereira

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