Perímetro Abaluartado

Perímetro Abaluartado

Chaul [Revdanda Fort], Maharashtra, Índia

Arquitetura militar

A dada altura, no Livro das Cidades e Fortalezas…(1582) lê ‑se: "Alevantados os cercos de Goa e Chaul ficando o Hidalcaõ e Nizamaluco por uassallos e tributarios da Coroa de Portugal como dantes eraõ, se começou a restaurar e redificar a cidade de Chaul que ficou muy dãnificada e destruida dos imigos, o que se fez com tanta presteza e demaneira, que está hoje muito mais fermosa e muito mais pouada que dantes./A qual se começou a cercar de muro de pedra e cal, com seus baluartes á custa de h~ua imposição de hum por cento, que se para isso pós nas mercadorias, que importará treze ou quatorze Mil cruzados cadanno, com que está já muita parte della muito bem cercada." Fica assim mais claro o contexto da construção do perímetro abaluartado de Chaul dado na entrada precedente. Em 1577 toda a frente de praia, de noroeste a sudeste, estava encerrada por uma muralha ritmada com pequenos torreões em jeito de baluartes. A frente de terra poucos anos demoraria a também ser murada. O processo foi, porém, contínuo, sendo claro como essa renovação foi decorrendo na frente de terra, onde os baluartes foram ganhando dimensão e complexidade, assumindo os tipos clássicos. O mais exuberante e portentoso, o de Santa Cruz, é já do século XVIII e ficou incompleto, ou seja, sem a cortina interior e o necessário terrapleno. A Porta do Mar ficou inevitavelmente implantada junto à feitoria e ao forte primitivo, sobre a ribeira e o rio. A Porta de Terra ficou a norte, obviamente, garantindo a ligação com o arrabalde exterior. Ambas seguem o até então tradicional modelo de portas duplas em sifão. Como em outros locais, de que se dá como exemplo Baçaim, sobre o mar (literalmente) a muralha era mais fraca, ou seja, menos espessa, menos alta (seis a sete metros) e com baluartes de menor expressão. Os do lado de terra atingem os onze metros de altura. Mais do que qualquer descrição, a imagem e a planta são a melhor forma de se ler o perímetro abaluartado da cidade, estrutura que, no fundo, é o que melhor continua a testemunhar no local a memória desta fundação urbana portuguesa ex‑nihilo. Mas para além do que persiste - o forte inicial, o perímetro abaluartado e a magnífica e insólita estrutura erguida no festo do morro - as estruturas defensivas de Chaul foram bem mais complexas, sendo disso prova e excelente ilustração um desenho anónimo, técnica e artisticamente ingénuo, provavelmente do período do assédio marata de 1684. Note‑se como a cidade preparara todo o território em redor, destacando‑se a construção de uma linha/tranqueira avançada a partir do convento capucho fortificado da Madre de Deus. A fortificação deste e a edificação de um torreão no Campo de Chaul datam do conflito de 1613‑1614 com Ahmedanagar. A verdade é que o complexo dispositivo funcionou, pois Chaul não foi conquistada, mas sim cedida no âmbito do acordo que pôs fim às hostilidades e, também, à Província do Norte.

Walter Rossa

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