Mylapore [Meliapor/São Tomé de Meliapor]

Lat: 13.031627777778000, Long: 80.277302777778000

Mylapore [Meliapor/São Tomé de Meliapor]

Tamil Nadu, Índia

Enquadramento Histórico e Urbanismo

Meliapor - cidade do pavão em tamil - está há muito integrada na metrópole estabelecida a partir da cidade indiana de Madras, Madrasta para os portugueses e Chennai na relativamente recente redenominação toponímica indiana. É a quarta mais populosa metró‐ pole do país. Madrasta tem a sua origem na cidade inglesa de Fort Saint George, estabelecimento fundado em 1639 pela Companhia Inglesa das Índias Orientais. Tal como Bombaim e Calcutá, foi sede de uma presidência daquela e mantém‐se como o principal centro económico e portuário da área do Golfo de Bengala. A metrópole desenvolveu‐se sobre uma costa baixa, plana e arenosa, entrecortada por vários lagos e rios que descem das montanhas situadas a cerca de uma dezena de quilómetros do mar. Meliapor situa‐se meia dúzia de quilómetros a sul do centro de Chennai, balizada a poente e norte pelo Canal de Buckinham e a sul pela alagadiça foz do Rio Adyar. Até há algumas déca‐ das tinha por oeste um lago. Na antiguidade, Meliapor teve uma existência recheada de factos relevantes para a história da vasta região do Golfo de Bengala. Assim, não espanta que São Tomé, o Apóstolo da Índia, depois da sua ação na Mesopotâmia e no Malabar, ao deslocar‐se para o Coromandel‐Bengala ali se tenha fixado. Perseguido, foi martirizado em 72 no Monte Grande (Thomas Mount), uma elevação com cerca de mil metros de altitude, situado a sudoeste de Meliapor e a cerca de dez quilómetros do mar. Há também uma versão que dá como causa de morte um acidente e até quem coloque em causa a própria estada do apóstolo na Índia. Mas o que aqui nos importa é o que a crença desencadeou no local. O que se passou após a morte de São Tomé é também confuso e controverso, havendo quem defenda ter sido sepultado no local da morte e, depois, transladado em 1523 pelos portugueses para Meliapor, quem afirme que foi logo sepultado em Meliapor, na capela que construíra sobre a praia para ali pregar diaria‐ mente e onde os portugueses ergueram uma nova basílica naquele ano, e quem dê curso à versão da transladação de parte das suas relíquias em 232 para Edessa na Mesopotâmia, as quais depois de um percurso rocambolesco acabariam em 1258 em Ortona (Itália). Para o nosso caso não é, mais uma vez, muito relevante a polémica, mas sim o facto de a sepultura estar na cidade no local onde os portugueses ergueram a basílica tumular católica sobre outra precedente. Também pouco importa se ali permanecem ou não relíquias do apóstolo, mas a verdade andará por algo como a sua repartição e, assim, a manutenção de algumas no primitivo local de sepultamento, sabendo‐se que em 390 ali existia um mosteiro. Sabe‐se também que nos séculos IX e X os árabes chamavam à cidade Betumah (cidade de Tomé) e que os cristãos nestoria‐ nos (persas) ali estabeleceram uma comunidade na sua diáspora forçada pelo Oriente. Marco Polo (1254‐1324) visitou o local, mencionando no seu livro a capela nestoriana sobre o túmulo, bem como o mosteiro que os nestorianos haviam erguido e ocupavam no local do martírio. Com a instalação autónoma de portugueses em Paleacate a partir de 1518 - situada quarenta quilómetros a norte e onde chegaram a erguer uma fortaleza, que acabou conquistada pelos holandeses em 1609 -, os rumores da existência do túmulo do apóstolo levaram‐nos a procurá‐lo sob ordem expressa do governador do Estado da Índia. Gaspar Correia, no capítulo nono da Lenda do quinto governador..., deixou‐nos o testemunho da sua visita em 1521, a terceira de portugueses ao sepulcro de São Tomé. É excepcionalmente meticuloso com a descrição do pequeno edifício e relíquias preexistentes, mas também dá conta do imediato processo de renovação, designadamente dos intervenientes, entre os quais o "mestre de canta‐ ria" Vicente Fernandes. Comovente é a referência à "primeyra missa" católica no local no dia do Corpo de Deus de 1521. É significativo o facto de as primeiras visitas portuguesas terem sido feitas por terra, precisamente a partir de Paleacate. Paleacate era de facto muito melhor porto, mas o singular magnete religioso da descoberta do túmulo de um dos doze apóstolos revelava‐se mais forte. O investimento na renovação dos edifícios que marcavam a ação do santo no local foi feito desde logo, a par com escavações prospectivas nas igrejas e imediações. Ao longo da década de 1540, na igreja do local do martírio no Monte Grande (Nossa Senhora da Expectação) e nas igrejas dentro e sobre uma gruta onde o apóstolo residiu no Monte Pequeno, a meio do percurso entre o primeiro e a cidade. Em 1522‐1523, na igreja no centro de Meliapor, sobre a praia, no local onde está o seu túmulo. Aqui o resultado foi um edifício de consideráveis dimensões, do qual se guarda um desenho, pois foi integralmente renovado entre 1893 e 1896. A par com São Pedro do Vaticano e Santiago de Compostela, é um dos três únicos túmulos de apóstolos reconheci‐ dos e dignificados com uma basílica. As duas igrejas dos montes mantêm o essencial ou mesmo muito do que os portugueses ali proveram, o que veremos em entradas próprias. Nos inícios da década de 1520, portugueses encontram assim um forte motivo para se instalarem em Meliapor, que então passam compreensivelmente a designar por cidade de São Tomé. Como em todo o Coromandel e Golfo de Bengala, a presença portuguesa fez‐se essencialmente sentir pela iniciativa de tratantes autónomos da coroa, mas não só. É reveladora a descrição que dessa situação nos faz o Livro das Cidades e Fortalezas... em 1582: "muitos Portugueses despois de cansados dos trabalhos da Guerra, fizerom nella assento de vivenda, e a emnobrecerom com magnificas e sumptuosas casas de sua morada, e fermosos jardins e Igrejas, e templos muito lustrosos e bem ornamentados: e outros nobres edifícios, que situarom demaneira que cõ elles, e com as paredes e cercas dos jardins que tem, se cercarom e forteficarom são tomé em roda para se poderem defender dos Gentios da terra."Continua destacando a importância como centro religioso cristão de várias confissões, sendo que gradualmente todo esse culto se estava a reduzir ao católico. Um facto interessante é o da relevância que uma família Medeiros adquiriu, pelo menos ao longo de toda a segunda metade do século XVII, sendo‐lhe atribuído o mecenato de construção, reabilitação ou restauro da maior parte das igrejas (Descanso, Luz, São Lázaro). Mais curioso é ainda o facto de se considerar que o próprio topónimo do núcleo urbano que floresceria a norte e aglutinaria Meliapor na sua mancha metropolitana, Madrasta, tenha origem no nome dessa família. Um pouco mais adiante, aquele relatório confirma‐nos ainda o seguinte: "Hé esta cidade e povoação do senhorio dos Reis de Narsinga [Vijayanagar] que nella tem recebedores que cobrao os direitos que pertencem á sua fazenda: Pello que os Reis de Portugal naõ tem nella rendimentos alguus sómete põem hum capitão que governa e administra justiça os Portugueses e mais Christãos que ha na terra, sem ordenado algum á custa de sua fazenda." No seu relato, publicado em 1587, o veneziano Cesare Federici (1530‐1600/3) descreve São Tomé como "la più bella di quante ne sono in quelle parti dell’India". São Tomé era, como sempre, um núcleo autónomo da cidade preexistente e hoje é uma área de Meliapor, que por sua vez está, como já acima se disse, imergida na metrópole de Chennai. Mas gradualmente o local foi ganhando importância comercial, sendo que a ocupação portuguesa foi empurrando a comunidade preexistente para o interior. Em 1537 a comunidade urbana de São Tomé era composta por meia centena de casados, e em 1544 esse número tinha duplicado. Se essa evolução surpreende, note‐se como era insignificante perante as seis a sete centenas de casados que então residiam em Paliacate, número que São Tomé só atingiria no início de Seiscentos. Cerca de 1580 a cidade tinha sete igrejas, além das duas nos montes e de outras que se iam erguendo junto às comunidades rurais autóctones. A avaliar pelo que persiste é um conjunto peculiar, onde a influência portuguesa é marcante, mas não retira lugar a um con‐ junto de características - como o contraste entre a baixa altura das naves e a utilização de abóbadas de canhão - que lhes confere uma especificidade de conjunto. Mas isso é matéria de um trabalho ainda por fazer, pois nem sequer a cronologia que sumariamente passo a apresentar é segura ou sequer consensual. Em 1544, São Francisco Xavier visitou os locais de peregrinação de São Tomé, rumando depois ao Extremo Oriente. Quatro anos depois, a Companhia de Jesus instalou‐se precariamente, assistindo no Monte Pequeno, para em 1587 fixar sede na Madre de Deus. Antes disso e a acreditar numa lenda, um pequeno grupo de franciscanos que seguiam numa nau em noite de tormenta foram guiados a terra por uma luz que, uma vez perseguida até ao interior, se extinguiu no local onde de imediato ergueram a Igreja de Nossa Senhora da Luz, a qual ostenta uma lápide com uma inscrição pintada, de fiabilidade duvidosa (tipo de letra, tinta, etc.), que dá como fundador um Pedro da Atouguia em 1516. É uma data surpreendente, pois antecede em dois o ano da primeira visita documentada de portugueses a Meliapor. No entanto, o portal manuelino parece confirmá‐la e desmentir a versão de que a igreja só terá sido erguida em 1547, data de uma provável e profunda reforma, bem como da propria‐ mente dita instalação dos franciscanos na cidade. São Lázaro terá sido erguida em 1582, e após diversas reconstruções é hoje Nossa Senhora da Guia. São Francisco, São João Batista e a Misericórdia completam essa primeira lista de 1580. Porém em 1635 os dominicanos concluíram e instalaram‐se no Santo Rosário e entre 1650 e 1688 foi construída a Igreja do Descanso (hoje Visitação). Pela ação do seu provincial, Frei Miguel dos Anjos, os agostinhos fundaram a sua casa em 1603, da qual subsistiu a Capela de Santa Rita, muito em virtude de uma profunda reforma levada a cabo em 1740. A presença mítica do apóstolo, os locais da sua ação, o investimento religioso da presença portuguesa no local, etc., convergiam pois para que em 9 de janeiro de 1606 fosse criada a diocese de São Tomé de Melia‐ por e que no ano seguinte a coroa ali tenha instituído um município, sempre sem qualquer clarificação ou estatuto de soberania. Era um município que administrava uma comunidade, não qualquer território, em boa medida sucedendo ao já acima referido capitão. Mais paradoxal é o facto de, perante diversas ameaças - entre as quais a dos holandeses, que cinco anos antes haviam conquistado Paliacate - em 1614 a população cristã ter erguido uma fortificação urbana que, con‐ tudo, deixou de fora uma considerável área de residências. De facto, não se conhece ainda o processo e estatuto de obtenção de autorização para se erguer esta fortaleza num espaço sobre o qual não se detinha a soberania. O relatório de António Bocarro e Pedro Barreto Resende (1635) legou‐nos uma representação que está muito longe do que seria a realidade, em especial no que diz respeito à morfologia urbana, e a própria descrição, apesar de efusiva, contém um conjunto de imprecisões óbvias, o que apenas nos permite supor que os autores nunca ali terão estado. Contudo a representação inequívoca de um perímetro abaluartado retangular (a descrição diz que é "quasy em redondo"), que desenhos posteriores nos permitem dizer que teria cerca de 900 x 300 metros, deverá corresponder a uma primeira fase, iniciada em 1614, sendo que, por volta de 1660, lhe terá sido acrescida para o interior uma nova área, também retangular e com cerca de 600 x 200 metros. Assim se conforma o perímetro fortificado representado no Plano e Prespectiva... de meados do século XVIII, à guarda da Biblioteca Pública de Évora, e em alguns mapas holandeses e ingleses, dos quais o de François Valentijn (1666‐1727) de cerca de 1670 é o mais esclarecedor. Neste se identificam claramente as duas fases da fortificação, bem como a existência de uma tranqueira e um fosso intermédio, de cuja falta António Bocarro dava conta em 1635. A criação e evolução do sistema defensivo é, em certa medida, tradução da dramática sucessão de acontecimentos militares que, a partir do ataque de um soberano local em 1646, se sucederam, constituindo‐se em mais um período relativamente confuso e obscuro da história de São Tomé. Fiquemos com o essencial. Em 1662 foi conquistada pelo reino de Golconda, e dez anos volvidos o almirante francês de la Haye tomou‐a, dando início a um curto período de dois anos de administração francesa. Com efeito, em 6 de setembro de 1674, os franceses renderam‐se aos holandeses que, por sua vez, pouco mais de um mês depois, a devolveram a Golconda. Em 1687, com a queda do reino de Golconda nas mãos do Império Mogol, os portugueses, que nunca haviam abandonado o local e a região, lograram recuperar alguma da autonomia que haviam perdido duas décadas atrás. Tão ténue que em 1697, por determinação mogol, tiveram de demolir as muralhas, garantindo contudo o significativo privilégio de poderem içar bandeira aos domingos e feriados. Em 21 de outubro de 1749, os ingleses ocuparam o território em redor de Fort Saint George, determinando com isso, e entre outros, o fim da mitigada soberania portuguesa, aliás praticada e assegurada por privados e não pela coroa. Desde então, São Tomé e Meliapor foram‐se integrando na dinâmica da metrópole que emergiu como Madras em redor do fort inglês. Apesar da existência de fontes suficientes para tal, ainda se encontra por fazer a monografia sobre a cidade portuguesa de São Tomé, os seus traços urba‐ nísticos, bem como a arquitetura de influência portuguesa que claramente ali persiste. A demolição das muralhas dificulta a determinação atual do seu antigo percurso. Mas tudo leva a crer que a sua linha norte se estendesse por onde San Thome High Road entra na South Beach Road, que a oeste iria sensivelmente por onde hoje passa a Mylapore Bazaar Road - com a Porta do Campo aberta para Kutchery Road onde esta cruza Arundale Street - e a sul por onde está o cruzamento de Foreshore Estate. Este perímetro deixa de fora bairros inteiros onde ainda hoje encontramos não só a maior parte das igrejas, mas casario com claras influências portuguesas. Mais desconhecido e difícil de descortinar que o perímetro é o próprio traçado urbano. Contudo, nada faz prever a existência de um plano prévio, mesmo de uma regulação comum. A instalação e crescimento súbitos ocorreram sob o magnete das relíquias e mito de São Tomé, não sob a tutela de um poder central ou municipal que os pudesse ter imposto.

Arquitetura religiosa

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