Biblioteca Municipal

Biblioteca Municipal

Quelimane, Zambézia, Moçambique

Equipamentos e infraestruturas

O projecto da biblioteca realizado em 1969 para responder à encomenda da Câmara Municipal de Quelimane foi desenvolvido por José Bernardino Ramalhete (1921-), um autor moçambicano de referência que assume nesta obra uma franca revisão do internacionalismo canónico do Movimento Moderno, aproximando-se de uma arquitectura de sinal brutalista temperada por um regionalismo critico. Realizada no quadro do GAUD (Gabinete de Arquitectura, Urbanismo e Decoração), o maior escritório de arquitectura e urbanismo à data em Moçambique, a Biblioteca de Quelimane testemunha o grau de sofisticação construtiva e espacial entretanto atingida por este arquitecto.

Se as referências à Igreja do Macutí, na Beira, que José Bernardino Ramalhete projecta em 1961, são inevitáveis, a verdade é que a atenção aos detalhes patente nos pormenores de construção demonstra uma qualificação do sentido de pormenor exercitado em numerosas obras de pequena dimensão.

A partir de uma planta centralizada, a biblioteca desenha-se através de quadrado perfeito resultante da triplicação do módulo de 6.40 m base que atinge 18.40 m de largo. O cubo formado por esta geometria precisa é trabalhado a dois níveis. Interiormente por uma pele exterior embéton brutformada por alvéolos, constituídos igualmente por quadrados salientes do plano recuado que contém as aberturas, usados como estantes dos livros. Uma segunda pele em grelha cruzada quadriculada em betão é aplicada no exterior do volume cúbico, distando cerca de dois metros das aberturas criando assim uma caixa-de-ar exterior e uma rede que protege a entrada do sol, da luz e do calor. O espaço magnífico da biblioteca é resultado da manipulação da luz, com a iluminação lateral a surgir assim através de uma luz coada no que é complementada por um astucioso sistema de iluminação zenital concebido a partir de uma recriação dos tradicionaisshedsindustriais. Com efeito, a laje de cobertura em betão é interrompida ritmadamente por uma série de seis caixotões paralelepipédicos levantados cerca 1.50 m no sentido nascente poente, erguidos a toda a largura da laje que cobre o cubo. Os caixotões são abertos de um dos lados deixando penetrar uma luz cruzada porque reflectida na face de betão contribuindo para a criação de uma atmosfera de recolhimento própria a função de biblioteca.

Ao centro do cubo ergue-se uma torre com 4.50 m de altura de planta igualmente quadrada usando a modulação base de 6.40 m de largo desenhada em alvéolos salientes por entre os quais se abrem finíssimas frestas de luz. Este espaço, a que se acede por uma irrepreensível escada em caracol, abriga um espaço reservado de estudo e trabalho. A entrada e aberta no lado sul do cubo estendendo uma pala de betão que prolonga a laje de cobertura com um balanco de 6.40 m e que é protegida por três membranas de betão reproduzindo o desenho dos alvéolos interiores, soltas da pala, criando um espaço de transição entre interior e exterior que conduz lateralmente o percurso do acesso a biblioteca.

Brutalista na expressão construtiva mas também na geometria precisa feita a partir de uma composição espacial de referência erudita, modulada com rigor em todas as dimensões, a Biblioteca de Quelimane é devedora da clareza, da maturidade e da excelência construtiva da produção arquitectónica dos anos 60. As referências a uma modernidade culta onde se cruzam referências que vão de Louis Kahn a Frank Lloyd Wright, testemunhando o equacionamento do esquematismo do Estilo Internacional, das discussões dos últimos CIAM e das propostas do Team X2, esta obra assume uma posição de destaque qualificado no universo moçambicano. Na verdade, composição e desenho em planta são articulados intensamente com uma concepção tectónica da construção. O binómio conjugado entre desenho feito para responder a uma estrita funcionalidade e o consequente partido tridimensional e concebido a partir de uma resposta clara ao lugar, ao clima e certamente também a função de espaço público de cultura que uma biblioteca requer.

Demonstrando que desenhar com o clima não implica necessariamente o recurso a corbusianosbrise-soleil, a Biblioteca de Quelimane é uma obra plena de invenção precisa e contida, sem correr riscos de expressão meramente formalista. Os princípios de articulação entre espaços servidos e servidores são interpretados e adaptados ao contexto e a circunstância, usando interior e exterior como dados do projecto. A fragmentação dos volumes segundo uma ordem exacta, a multiplicação dos corpos sem perder a unidade e o cuidado colocado na estruturação dos espaços interiores são secundados pela excelência dos pormenores de construção que respeitam e fazem cantar a natureza da madeira ou dobéton brutagenciados de acordo com uma "arquitectura de secos". O resultado é a expressão magnífica dos materiais reforçados pela manipulação da luz feita com mestria e sabedoria.

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