Igreja e Casa Professa do Bom Jesus

Igreja e Casa Professa do Bom Jesus

Goa [Velha Goa], Goa, Índia

Arquitetura religiosa

A igreja e a antiga casa professa do Bom Jesus de Velha Goa constituem um complexo arquitetónico edificado pela Companhia de Jesus entre 1586 e meados do século XVII. As vistas e plantas históricas permitem‑nos localizar a edificação no lado exterior da rua de circunvalação - provavelmente correspondendo às muralhas do período muçulmano - do centro da desaparecida cidade. Originalmente igreja e casa professa delimitavam a este e a sul a praça denominada Terreiro dos Galos, que consistia num alargamento da rua de circunvalação.
Igreja e casa professa foram edificadas em momentos e circunstâncias distintos, tendo sido primeiramente erguida esta última. A iniciativa da construção de um novo edifício para casa professa, em 1586, deveu‑se ao então provincial, o italiano Alessandro Valignano, que reclamou para si a autoria do projeto, segundo ele baseado num desenho de um edifício (que não identificou), fornecido pelo engenheiro‑mor do reino, o também italiano Giovanni Battista Cairato. Mas é também muito provável a participação do arquiteto da Companhia em Goa, Domingues Fernandes.
A casa professa é o único edifício de Velha Goa do qual se mantém um projeto inicial, o que se deve à exigência da Companhia de Jesus de que um exemplar fosse enviado para Roma para aprovação (os originais encontram‑se hoje na Biblioteca Nacional de França). As plantas enviadas por Valignano ainda em 1586 para Roma consistem numa representação muito esquemática do que, com algumas alterações, foi efetivamente edificado. Hoje mantêm ‑se duas das quatro alas inicialmente previstas, que delimitavam um pátio central. As alas, de três pisos cada, apresentam celas do lado exterior e um corredor do lado interior, que se prolonga até à parede exterior da ala perpendicular, onde gera uma grande abertura.
Na planta do piso térreo da casa professa, Valignano desenhou o local de implantação da igreja, cuja legenda é significativa: "Lugar para la yglesia, la qual hasta agora no estamos determinados se ha de ser una sola nave o de tres naves, mas para todo ha lugar". Isto significa que nos finais do século XVI a opção por igrejas de uma só nave na Companhia não era ainda - pelo menos em Goa - um dado adquirido. A reação de Roma revela também que a avaliação deste projeto de arquitetura pelos mestres‑de‑obras do Geral da Companhia se debruçou apenas sobre a dimensão e disposição da casa professa, ignorando a questão da organização espacial da própria igreja.
Não conhecemos os motivos concretos pelos quais se veio a optar por uma igreja de nave única, para além de esta ser a prática corrente em Portugal e no resto da Europa desde pelo menos a década de 1560. A igreja de Velha Goa foi começada em 1594, quando, devido a uma herança inesperada de Jerónimo de Mascarenhas, os jesuítas voltaram a dispor de uma fonte de financiamento. Valignano, ausente em Macau, não esteve envolvido no processo. A igreja viria a ser sagrada em 1605 pelo arcebispo Frei Aleixo de Meneses, antes de a obra estar completamente terminada. Optou‑se por uma igreja sem capelas laterais, mas com dois grandes compartimentos de um e outro lado da capela‑mor, em substituição dos braços de um transepto. Todos os espaços são de planta retangular e articulam‑se com a nave através de arcos de volta inteira, sendo esta o grande espaço aglutinador do templo.
A igreja possui um coro alto sobre pilares e abóbadas de aresta, assim como um teto de masseira sobre a nave com curiosas vigas de madeira, que substituiu em 1862 a cobertura original. Os braços do falso transepto e a capela‑mor possuem abóbadas de berço com caixotões. Interior e exteriormente, a igreja é articulada por pilastras e entablamentos numa grelha modular, como é próprio da arquitetura religiosa (e civil) de Goa. Os três grandes contrafortes erguidos na parede norte do corpo da igreja datam de 1862, e evidenciam a desadequação das formas arquitetónicas e tecnologias construtivas da arquitetura de raiz europeia ao clima das monções. Aqui, as chuvas ininterruptas enfraqueciam as alvenarias de laterite das paredes exteriores sem proteção, cujos telhados, sem beirado, se escondem atrás das balaustradas que as rematam. Os gigantescos contrafortes foram a solução mais comum em Goa para a consolidação adicional dos edifícios construídos por mestres de obra europeus.
A fachada, cujo projeto foi apenas definido em 1597, tem três pisos completos, divididos por pilastras, e um pano adicional com um baixo‑relevo enquadrando a sigla IHS (Iesus Hominum Salvator, expressão latina adotada pelos jesuítas como Iesus Habemos Socium). Reconhecem‑se influências italianas (sobretudo nos portais do piso térreo), francesas (nas janelas retangulares do segundo piso) e flamengas (nas janelas circulares envoltas em cartelas de volutas do terceiro piso). Embora haja unanimidade entre os investigadores de que a igreja foi construída segundo um projeto de Domingos Fernandes - que, contudo, parece não ter tido formação de fundo, mas sim adquirido experiência em obra desde a sua chegada a Goa em 1578 - a fachada pode ter outra autoria, justificada pela complexidade e densidade configurativas, únicas no panorama da arquitetura goesa (e portuguesa) da época.
Ao lado sul da igreja encosta‑se um pátio, arquitetonicamente comparável a um claustro, que se supõe datar da mesma época que aquela. Trata‑se possivelmente do mais antigo deste tipo de pátios/claustros, comuns na arquitetura religiosa cristã de Goa, de galerias em dois pisos, com arcos de volta inteira articulados por pilastras toscanas, traindo a influência arbertiana com modelo nas arcadas do Coliseu de Roma ou do Teatro de Marcelo. Este é um pátio de planta retangular, em que as galerias dos lados menores têm seis arcos, enquanto as galerias dos lados maiores oito. A sacristia atual, do lado sul da capela‑mor, foi iniciada em 1652 para substituir uma sacristia anterior, demolida semanas antes do arranque da obra. A nova sacristia foi dedicada em 1654.
Em 1659, os braços do falso transepto ficaram ampliados em mais um tramo. No braço norte, inicialmente com função de capela dedicada a São Francisco de Bórgia, tinha estado o corpo de Francisco Xavier desde 1624, altura da sua transladação de São Paulo; agora, em 1659, o corpo passava para a ampliação do braço sul, onde ainda hoje se encontra, sob um sepulcro de 1698, oferecido pelo grão‑duque da Toscânia, Cósimo III; ainda em 1659 o Santíssimo foi deslocado deste espaço para o braço norte. As dependências de interligação com a igreja, assim como a monumental escadaria de dois lances, foram construídas nessa época.
A importância da Igreja do Bom Jesus vai muito para além do contexto cultural goês. Historicamente, foi a segunda grande igreja dos jesuítas em Goa (mas a primeira dentro do recinto da velha cidade), sendo a igreja da casa professa, a principal residência dos jesuítas e centro da ação missionária da Companhia no Oriente. Arquitetonicamente, foi o edifício que introduziu na Índia o tipo de igreja jesuíta portuguesa, de uma só nave e espaços de planta retangular a ela adossados, ao modo de São Francisco de Évora, que viria a ser o modelo da igreja de Goa nos dois séculos seguintes. Apesar da inexistência de capelas laterais trata‑se do mesmo tipo arquitetónico, pois é o modo da articulação dos espaços que o caracteriza, e não a existência (ou não) de determinados elementos espaciais. A possibilidade de este tipo já estar representado em Goa através da primeira igreja do convento franciscano, não lhe retira o carácter inaugural de uma época em que a adesão ao tipo arquitetónico de nave única se torna definitiva em Goa.
A Igreja do Bom Jesus foi elevada a Basílica Menor em 1946.

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