Capela de Nossa Senhora do Monte

Capela de Nossa Senhora do Monte

Goa [Velha Goa], Goa, Índia

Arquitetura religiosa

A Capela de Nossa Senhora do Monte pertence ao grupo de capelas votivas, fundadas por, ou por desejo de Afonso de Albuquerque. A capela ergue‑se no alto da colina a nascente do desaparecido centro da cidade, diametralmente oposta ao Monte Santo e, tal como este, sobranceira ao Rio Mandovi. Segundo Gaspar Correia, a capela foi iniciada imediatamente após a conquista da cidade de Goa às tropas de Adil Shah em 1510. Henrique Bravo de Moraes confirma‑nos esta informação e acrescenta que a capela foi ampliada posteriormente, sem especificar a data.
A Capela de Nossa Senhora do Monte reproduz, em escala reduzida (ainda que de dimensões consideráveis para uma capela), as características da arquitetura religiosa cristã de Goa de influência portuguesa. A capela tem uma nave única e uma capela‑mor mais baixa e menos larga que a nave. Ambos estes espaços, de planta retangular, encontram‑se cobertos com abóbadas de berço com caixotões. A norte, uma loggia e a sacristia completam o conjunto. A composição da fachada da capela apresenta semelhanças com a fachada da Sé de Goa, à qual Nossa Senhora do Monte era sufragânea. Três tramos com portais no piso térreo e janelas coroadas com frontões clássicos triangulares no primeiro são sobrepujados por um pano central adicional ladeado por aletas, que escondem o telhado de duas águas sobre a nave no corpo da capela. Também as pilastras duplas nas esquinas constituem uma solução presente na Sé, embora rara em Goa (e que provavelmente tem origem na fachada da destruída Igreja de Nossa Senhora do Carmo, dos carmelitas italianos, que se localizava perto da Capela de Nossa Senhora do Monte).
Embora a estrutura de articulação goesa tenha sido aparentemente a referência configurativa das paredes da capela, reconhecem‑se alguns desvios desta ortodoxia, que devem ser entendidos como uma inovação. No exterior da capela observa‑se uma sobreposição de articulações em dois planos, em que num plano atrás das pilastras correm faixas - e não entablamentos - que dividem o corpo da capela em dois pisos. Mas sendo as pilastras contínuas do embasamento ao entablamento, estamos perante uma ordem colossal, ainda que o seu impacto visual seja atenuado pelas mencionadas faixas. Também se vêem vários panos com duas janelas, o que contraria o princípio de abertura única recorrente na arquitetura cristã goesa.
O problema estrutural tinha‑se revelado em 1980, com o aparecimento de uma fissura longitudinal na abóbada da nave. Nos anos 90 do século XX, a capela sofreu um restauro. A capela foi consolidada e, para tal, toda a estrutura de telhado foi apeada. Os elementos de reforço da fachada, construídos em data desconhecida, foram removidos. No entanto, estes elementos, apesar de desfigurarem a fachada, eram, como muitos outros em diversos edifícios goeses, testemunho da fragilidade do edificado português em território goês e da inadequação das formas arquitetónicas europeias em relação aos materiais e clima indiano.
A linguagem arquitetónica da Capela de Nossa Senhora do Monte demonstra um projeto mais diferenciado do que é a regra na arquitetura religiosa de Goa. Este sugere a autoria de alguém que, (re)conhecendo e partindo da tradição goesa, teve a perícia de elaborar um desenho de grande subtileza e inovação. Algumas soluções da articulação lembram a torre sul da Sé de Goa e o Arco dos Vice‑Reis. O que conhecemos da história desta capela não nos permite sugerir a autoria do mesmo arquiteto deste último, Júlio Simão, mas a aproximação por analogia de formas pode ser uma pista para investigações futuras.

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